La escuela y el compromiso con la cultura popular: La presencia de las manifestaciones culturales locales en las prácticas curriculares de las escuelas municipales en Barbalha-CE

A escola e o compromisso com a cultura popular: A presença das manifestações culturais locais nas práticas curriculares das escolas municipais em Barbalha-CE

Mbo’ehao ha tetãygua arandupy ñemoherakuã: Arandueta Barbalha-CE táva pegua ñehekombo’e mbo’ehaokuéra upe távape

The school and Commitment to Popular Culture: The Presence of Manifestations in the Curricular Practices of Municipal Schools in Barbalha-CE



Cicero Neildson Felix de Alencar

Universidad Tecnológica Intercontinental



Nota del autor

Facultad de Posgrado

nei-alencar@hotmail.com



Resumen

Teniendo en cuenta los diversos conceptos de la cultura, creemos que la forma de vivir de un pueblo, sus hábitos, actitudes, creencias y prácticas se explican a través de la cultura. La misma se presenta como formadora de la realidad social condicionante que caracteriza toda la vivencia de un determinado pueblo. En mi experiencia como educador y artista popular siento la necesidad de profundizar la relación entre los diversos grupos folclóricos en el Municipio de Barbalha y la escuela. Así, me preguntó en qué circunstancias las manifestaciones de la cultura popular pueden contribuir al proceso de la formación pedagógica de la educación en Barbalha-Ce. Pretendo con mi investigación analizar las principales contribuciones encontradas en la comprensión, por parte de los alumnos y de los profesores del significado de la cultura popular.

Palabras clave: Cultura popular, Educación, currículo



Resumo

Tendo em vista os vários conceitos de cultura, acreditamos que a forma de viver de um povo, seus hábitos, atitudes, crenças e práticas são explicadas através da cultura. Esta se apresenta como formadora da realidade social condicionante que caracteriza toda a vivência de um determinado povo. Na minha experiência como educador e artista popular sinto a necessidade de aprofundar a relação entre os vários grupos folclóricos no município de Barbalha e a escola. Assim, questiono em quais circunstâncias as manifestações da cultura popular podem contribuir para o processo de formação pedagógico na educação de Barbalha-Ce. Pretendo com a minha pesquisa analisar as principais contribuições encontradas na compreensão, por parte dos alunos e dos professores do significado da cultura popular.

Palavras chave: Cultura popular, Educação, currículo.

Ñemombykypre

Heta hendáicha ojekuaa rupi arandupy, rorovia opa hendáicha oikoha peteĩ tetãma, ojapokatuíva, iguata, hembiguerovia ha iñemomgu’e oñehakã’i’okuaa heko rupive. Ha’e niko ombohete ha omohenda ñande yvyaporakuéra jeikove oñondive, omopeteĩva peteĩ tetãma jeikove. Che rekovépe mbo’ehára ha artista popular háicha ahapojo’opypukuse mba’éichapa ojegueraha ojopógui umi taravandu rehegua aty upe távape ha mbo’ehao. Añeporandúkuri mba’éichapa ikatúne umi tetãygua arandu oipytyvõ ñehekombo’épe mbo’ehaokuérape Barbalha-pe. Che rembiapo rupive aheka mba’e mba’e tetãygua arandupy jeguakápa ojuhu umi temimbo’e iñamoarandúpe.

Mba’e mba’e rehepa oñeñe’ẽ: Tetãygua arandupy, tekombo’e, currículo

Abstract

Considering the various concepts of culture, we believe that the way of life of people, their habits, attitudes, beliefs and practices are explained through culture. This presents itself as a trainer of social reality constraint that characterizes the entire experience of a particular people. In my experience as an educator and folk artist, I feel the need to deepen the relationship between the various folk groups in the municipality of Barbalha and school. So, I question under what circumstances the manifestations of popular culture can contribute to the process of pedagogical training in Barbalha, CE education. I want to analyze with my research the key contributions found in the understanding, by students and teachers, of the meaning of popular culture.

Keywords: Popular culture, Education, Curriculum.





A escola e o compromisso com a cultura popular: A presença das manifestações culturais locais nas práticas curriculares das escolas municipais em Barbalha-CE

A cultura é uma forte agente de identificação pessoal e social, molda o comportamento que integra segmentos sociais e gerações, fomenta a interação com os grupos e promove a realização do indivíduo enquanto pessoa.

Precisamos formar um público jovem e interessado nas nossas próprias raízes, desprezando qualquer tipo de preconceito, mas orgulhoso delas, com o espírito aberto o suficiente para descobrir e valorizar a beleza das manifestações culturais do seu povo.

Assim, a escolha do tema Cultura Popular e Educação vem da necessidade de se compreender a cultura popular no meio educacional tendo como relevância a proposta de fundamentar o tema universo desta pesquisa para futuros estudos e análises, visto que há uma carência de cunho teórico e prático nas instituições de ensino.

Natureza e cultura são dois conceitos que mantêm íntima relação. Pode-se definir a natureza como tudo que existe no universo sem sofrer a intervenção humana. Planetas, estrelas, montanhas, rios, vulcões, terremotos, enchentes, eclipses fazem parte da natureza. Já o ser humano, por sua vez, faz parte do mundo cultural.

A partir do século XVIII, filósofos como Kant, estabeleceram uma diferença essencial entre natureza e ser humano: o reino da natureza é regido por leis necessárias de causa e efeito, é determinado, ao passo que o reino humano, ou da cultura, é dotado de liberdade e razão. O ser humano faz escolhas voluntárias e racionais entre bem e mal, justo e injusto, verdadeiro e falso, belo e feio.

Mas então podemos dizer que tudo o que o ser humano faz é cultura? A resposta pode ser sim e não, dependendo do conceito de cultura que estivermos usando, o antropológico, amplo ou o restrito à área das artes.

De acordo com Laraia (2003, p. 53) acerca do conceito antropológico: O homem adquiriu, ou melhor, produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro, modificado pelo processo evolutivo dos primatas, foi capaz de assim proceder.

A espécie humana, não sendo biologicamente determinada para agir no mundo, conta, entretanto, com a capacidade de pensar sobre realidade e de construir significados para a natureza, para o tempo e o espaço, bem como para os outros seres humanos e todas as suas obras. A essa construção simbólica, que vai guiar toda ação humana, dá-se o nome de cultura. Cultura, portanto, é o modo como indivíduos e comunidades respondem às suas necessidades e aos seus desejos simbólicos.

A cultura, assim entendida, engloba a língua que falamos, as idéias de um grupo, as crenças, os costumes, os códigos, as instituições, as ferramentas, a arte, a religião, a ciência, enfim, todas as esferas da atividade humana. Mesmo as necessidades básicas da espécie — como a reprodução e a alimentação — são realizadas de acordo com regras, usos e costumes de cada cultura particular.

A função da cultura é tornar a vida segura e contínua para a sociedade humana. Ela é o "cimento" que dá unidade a um certo grupo de pessoas que divide os mesmos usos e costumes, os mesmos valores.

Desse ponto de vista, portanto, podemos dizer que tudo o que faz parte do mundo humano é cultura e que todos nós somos cultos, pois dominamos a cultura do nosso grupo, seja ele urbano, ou rural, indígena ou de outra etnia, de uma ou de outra crença religiosa ou de qualquer outro tipo. Santos (2001, p. 7) afirma:

Cultura é uma preocupação contemporânea, bem viva nos tempos atuais. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social, de se apropriar dos recursos naturais e vida social, de se apropriar dos recursos naturais e transforma-los, de conceber a realidade e expressá-la.

Na verdade, não há distinção hierárquica entre as culturas, uma vez que, como já dissemos, cada uma responde às necessidades e aos desejos simbólicos do grupo. Quando essas necessidades são complexas, a cultura também é complexa; quando as necessidades são mais básicas, a cultura é menos complexa.

Segundo Chauí (2000) o momento da separação entre natureza e cultura é o do surgimento da lei humana, em substituição à lei natural. A lei humana é um imperativo social que organiza toda a vida dos indivíduos e da comunidade, determinando o modo como são criados os costumes, como são transmitidos de geração em geração como fundam as instituições sociais (religião, família, formas do trabalho, guerra e paz, distribuição das tarefas, formas de poder etc.). A lei não é uma simples proibição para certas coisas e obrigação para outras, mas é a afirmação de que os humanos são capazes de criar uma ordem de existência que não é simplesmente natural (física e biológica). Esta ordem é a ordem simbólica.

Uma vez que o símbolo ocupa o lugar de uma coisa que não está presente, é por meio dele que nos relacionamos com o que está fisicamente ausente, seja o passado e o futuro, as coisas e as pessoas distantes especialmente ou os entes criados pela nossa fantasia e imaginação.

Pluralidade cultural

Tendo definido cultura como sendo o modo pelo qual os seres humanos respondem às suas necessidades e aos seus desejos simbólicos, imediatamente temos de aceitar que existem muitas culturas, porque tanto as necessidades e os desejos variam de grupo para grupo, quanto a maneira de suprir a ambos são múltiplas. Santos (2003, pg. 08), evidencia que:

Cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos, nações, sociedades e grupos humanos. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram, logo se constata a sua grande variação.

Um exemplo fácil para compreendermos isso é o das religiões. A religião responde a um desejo e a uma necessidade de "religação" do ser humano com o divino.

Os modos de fazer essa religação, entretanto, variam no tempo e no espaço: houve religiões politeístas, com vários deuses "especializados"; religiões monoteístas que diferem entre si (islamismo, judaísmo, cristianismo, budismo etc.). Mesmo dentro do cristianismo há inúmeras seitas, cada uma com suas especificidades: o catolicismo aceita a autoridade suprema do papa, ao contrário das Igrejas protestantes, que julgam que os indivíduos não precisam de um mediador para interpretar os livros sagrados e para se dirigir a Deus.

Houve religiões que exigiam o sacrifício da vida humana ou animal para agradar aos deuses; outras há em que o sacrifício é apenas simbólico. E assim por diante.

É só olhar ao nosso redor para constatar que a própria "cultura brasileira" é bastante diversificada e composta por muitas culturas. As necessidades e os desejos de uma comunidade que vive no litoral são muito diferentes das necessidades e dos desejos de uma que habita o interior do país, sobrevive do pastoreio e, talvez, nunca tenha visto o mar.

Mesmo dentro de uma mesma cidade, há várias culturas convivendo simultaneamente: a cultura dos jovens, com vocabulário, interesses, gosto, atividades específicas; a cultura dos adultos, da qual a profissão é parte importante; a cultura infantil, com suas brincadeiras, modos de falar, dependência dos adultos; a cultura dos idosos, já aposentados, sem a responsabilidade de ganhar a vida, com suas lembranças, seus objetos, seus modos de vida etc. Se pensarmos em termos profissionais, também poderemos identificar muitas culturas: a cultura médica, a dos advogados, psicólogos, economistas, políticos, profissionais da educação, das donas de casa, do funcionário público, para citar só algumas. Cada uma tem interesses próprios, que levam ao desenvolvimento de um vocabulário próprio, de atitudes comuns e de certos hábitos. É o compartilhamento de memórias comuns e de certas tradições. E é nesse sentido que afirmamos anteriormente que a cultura é o "cimento" que une as pessoas.

Ora, essa identificação com uma determinada cultura é o que também se chama de "pertencimento": é o reconhecimento dos traços comuns que nos unem a um grupo e dos traços distintivos que nos separam de outros grupos. É importante lembrar, neste momento, que não devemos julgar as outras culturas a partir do nosso ponto de vista cultural, mas interpretar cada dado, cada fato, a partir da cultura à qual ele pertence. Só procedendo desse modo, teremos a oportunidade de compreender os comportamentos, os usos e os costumes alheios, em vez de julgá-los e condená-los, apenas por serem diferentes.

O mundo contemporâneo, por ser muito complexo, exige que cada um de nós pertença a muitos grupos ao mesmo tempo: o grupo sexual, o etário, o social, o profissional, o familiar, o de lazer, o comunitário, o esportivo, o religioso, cada qual com sua história, seus usos, seus costumes, suas tradições, ou seja, com sua cultura específica. Sabemos que essa diversidade em alguns momentos históricos, provocou várias situações.

Oliveira (2000, p. 146) torna claro que nas sociedades contemporâneas encontramos pessoas que contestam certos valores culturais vigentes, opondo-se radicalmente a eles, num movimento chamado de contra cultura. O que é "normal" e bem aceito em um desses grupos pode ser visto com maus olhos em outro. Ou seja: se a cultura é um conjunto de práticas que mantêm um grupo unido, esse mesmo conjunto diferencia um grupo de outro. Por meio da cultura, é possível identificar quem pertence e quem não pertence àquele grupo. Por isso, modificamos nosso comportamento cultural dependendo da situação em que nos encontramos. Como, por exemplo, no momento em que nos tornamos profissionais, mudamos o nosso código de vestimenta, passamos a ser mais cuidadosos com o vocabulário que usamos, aprendemos a nos relacionar com colegas profisionalmente, independentemente de gostarmos deles ou não, deixamos de expressar todas as nossas ideias e opiniões etc. Em outras palavras, nós nos enquadramos nos padrões de uma outra cultura.

Em vista disso, é mais razoável falarmos de culturas no plural, mesmo quando estamos nos referindo a um único país. E todas elas são válidas, todas contribuem para fazer do país, da região ou da comunidade aquilo que eles são; todas são funcionais, ou seja, todas servem para unir as pessoas, para dar segurança e continuidade aos grupos, para construir identidades, tornando possível a vida no mundo.

Seja como for, é importante lembrar que nossa identidade é forjada dentro das várias culturas de que participamos: desde a familiar, que nos dá os valores básicos que guiam nossos primeiros anos de vida, até as culturas que escolhemos à medida que nos torna-mos adultos autónomos. Estas últimas podem reforçar, negar ou agregar outros valores aqueles que aprendemos, e assumimos, com nossas famílias.

Como vimos, o mundo humano é o mundo cultural que vai sendo construído de acordo com as necessidades e os desejos dos grupos e das comunidades.

A cultura é uma invenção necessária para integrar as pessoas entre si e ao ambiente em que vivem, para regular o comportamento, a fim de que nos tornemos humanos, exercitando a razão, a vontade, a afetividade e a imaginação, com liberdade e responsabilidade. Nos capítulos seguintes desta unidade, veremos com mais profundidade alguns aspectos da cultura contemporânea que podem nos ajudar a refletir sobre o nosso lugar no mundo.

Manifestações da cultura popular (circunstâncias)

A região do Cariri, localizada ao Sul do estado do Ceará é composta por 33 municípios, limitando-se com os estados de Pernambuco e Piauí ao longo de toda a Chapada do Araripe. Todos esses municípios caririenses são distribuídos em cinco microrregiões. Entre elas, a região Sul do Cariri, formada pelas cidades de Barbalha. Crato, Jardim, Juazeiro do Norte e Missão Velha.

Nosso estudo vai se pautar na microrregião Cariri, especificamente no município de Barbalha, localizado a 538 quilómetros da capital, por possuir elementos tradicionais da cultura popular que vem se perpetuando através da oralidade. Atualmente Barbalha possui 45 grupos que representam os costumes e a arte do povo nas mais variadas formas de expressão. Muitos elementos dessa variedade cultural que permanece viva, chegaram ao Cariri, através de sua colonização diversificada. Bem como a presença do elemento indígena que já se fazia presente nas terras, os índios Kariris.

A microrregião possui posição geográfica privilegiada, ao sopé da Chapada do Araripe, pois, detém considerável potencial natural de recursos hídricos, solo húmido e fértil e clima semi-árido que favorece o cultivo de vários produtos.

Segundo Padre Gomes, Apud Neves, a colonização do Cariri se deve a baianos, pernambucanos e sergipanos que através da expansão dos currais de gado, da emigração para a região pelo rio Salgado e Riacho dos Porcos desbravaram as terras dos índios Kariris.

Para Neves (2000, p. 162) os índios Kariris foram hostis na defesa de suas terras contra os colonizadores, o que resultou na dizimação desse povo. Porém esta hostilidade se deve á captura e escravidão dos índios pelos colonizadores, para o trabalho na agricultura e na pecuária. Vendo suas terras serem tomadas pelos brancos, eles não podiam deixar de reagir. O que prova que a hostilidade dos índios Kariris foi apenas uma represália a um ato de extremo desrespeito e crueldade.

O homem branco entrou no Cariri na base do trabuco e do facão, dizimando tudo! Aqui fincaram a bandeira da civilização, decretando verdadeiro genocídio às populações indígenas, restando deles, os índios, tão somente o nome Cariri para a região e o nome do velho cacique Araripe para a chapada que abraça o vale num amplexo de mãe dadivosa.

O colonizador tentou exterminar o índio, mas a influência de sua cultura permaneceu. Com o passar dos anos a região tornou-se rota comercial de grande importância, devido sua localização geográfica, clima favorável, solo fértil e abundância de água, transformando-se aos poucos num ponto visitado e requisitado por viajantes desbravadores, tornando-se também um diverso celeiro cultural. Mediante a confluência de etnias do índio e do branco colonizador, o Cariri apresenta uma formação cultural vasta, resultante da miscigenação dos povos que formaram e ainda formam a região, o que lhe confere características marcantes, peculiares aos moradores dessa localidade, de manifestações ricas e expressividade artística incomparáveis. Como sugere Neves (2000, p. 163).

Todo oásis atrai viajantes dos desertos obviamente, e o Cariei sempre foi um oásis na paisagem semi-árida do Nordeste. Pois bem como oásis o Cariri atraiu e ainda atrai gente de todas as latitudes e longitudes, aqui surgindo uma opulenta cultura da miscigenação e tantas tendências e até de tantas etnias. Efetivamente a cultura do Cariri é opulenta, inclusive a cultura popular o folclore e as várias manifestações artísticas.

Por ser o Cariri reconhecidamente um lugar de diversos costumes e tradições, o que confere à nossa cultura a característica de diversificada, destacaremos em nosso estudo o Reisado como forma de expressão do ciclo natalino que também se faz presente em várias comemorações e no dia de festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, padroeiro de Barbalha, como conteúdo de estudo para a Educação Infantil.

Cultura popular e formação

Tendo em vista os vários conceitos de cultura já expostos, acreditamos que as formas de viver de um povo, seus hábitos, atitudes, crenças e práticas são explicadas através da cultura. Esta se apresenta como formadora da realidade social, condicionante que caracteriza toda a vivência de um determinado povo.

Para Marta Korl de Oliveira (2002) estudiosa de Vigotsky (pensador bielo-russo que estabeleceu o conceito de produção e cultura humana baseado nos signos como a linguagem simbólica desenvolvida pela espécie humana que têm um papel similar ao dos instrumentos: tanto os instrumentos de trabalho quanto os signos são construções da mente humana, que estabelecem uma relação de mediação entre o homem e a realidade. Por esta similaridade, Vygotsky denominava os signos de instrumentos simbólicos e culturais, com especial atenção à linguagem, que para ele configurava-se um sistema simbólico fundamental em todos os grupos humanos e elaborado no curso da história social.

Assim, este considera em sua teoria histórico cultural que o homem é essencialmente produto dos momentos históricos por ele vividos e expressão máxima de toda cultura por ele armazenada e perpetuada de geração a geração. O homem não existiria sem o contato com os seus semelhantes. A cultura para ele é característica peculiar da humanidade. Assim coloca Oliveira (2002, p. 24):

Vigotsky tem como um de seus pressupostos básicos a ideia de que o ser humano constitui-se enquanto tal, na sua relação com o outro social. A cultura torna-se parte da natureza humana num processo histórico que, ao longo do desenvolvimento da espécie e do indivíduo, molda o funcionamento psicológico do homem.

Ao ser dada a merecida valorização e importância ao ensino fundamental e a Cultura Popular como indissociáveis à qualidade na educação, os educandos terão uma preparação intelectual rica, plena de possibilidades. É no fundamental que o aprendiz precisa ser estimulado às interações com o meio, como forma de desenvolvimento de suas potencialidades e formação. Segundo Cruz (2001, p. 3):

É através das interações que o educando estabelece com as pessoas e objetos, ( portanto com a sua cultura), que a criança vai adquirindo e ampliando seus conhecimentos, suas habilidades e seus valores. Daí a importância do papel da educação infantil na vida de todo ser humano.

No ensino fundamental, as ações de cuidados e de educação dos agentes envolvidos se confundem. O trabalho pedagógico e o desenvolvimento dos educandos estão alicerçados nos aspectos social, afetivo, cognitivo e psicomotor do indivíduo. O conjunto desses aspectos é permeado pelo universo cultural do qual fazem parte. Assim é através da produção e recriação da cultura que o aluno poderá interpretar a realidade que a cerca, sendo capaz de ordenar os fatos com clareza e entendimento. Como afirma Oliveira (2002, p. 27): “É a cultura que fornece aos indivíduos os sistemas simbólicos de representação da realidade, e por meio deles, o universo de significações que permite construir uma ordenação, uma interpretação dos dados do mundo real.

A instituição de ensino fundamental é o lugar ideal para se desenvolver comunicação entre os indivíduos. A fala torna-se assim elemento primordial no desenvolvimento da criança. Para Laraia, isso é fruto da cultura. Ele acredita que a cultura não se fazia existir, caso o homem não tivesse a incrível capacidade de se comunicar de forma oral.

Também Vygotsky, segundo Oliveira (2002, p. 28) acredita que o meio cultural onde o indivíduo vive, lhe oferecerá recursos para entender significados e formular conceitos através das palavras utilizadas por determinado grupo social. Observe: “É o grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve que vai lhe fornecer, pois, o universo de significados que ordena o real em categorias (conceitos), nomeados por palavras da língua desse grupo”.

Em virtude disso, as instituições de educação infantil devem conhecer e respeitar as diferentes culturas onde as crianças crescem e desenvolvem meios de possibilitar oportunidades a todas as crianças sem distinção.

Segundo Laraia (2003, p. 62): “A criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. Esta amplitude de possibilidades, entretanto, será limitada pelo contexto real e específico onde de fato, ela crescer”.

Nesse sentido, o ensino fundamental tem um papel bem maior do que apenas e tão somente instruir intelectualmente o aprendiz, mas introduzi-lo no processo de ensino e aprendizagem para que este possa conhecer e respeitar as manifestações culturais. Passando com isso a ser responsável pela aquisição de conhecimentos, levando em conta todo o contexto cultural onde a criança está inserida.

Vygotsky também considera as diferenças culturais dos grupos como qualitativas e características da forma de organização de cada um. Como afirma Oliveira (2002, p. 32): “As diferenças qualitativas no modo de pensamento de indivíduos provenientes de diferentes grupos culturais estariam baseadas, assim, no instrumental psicológico advindo do próprio modo de organização das atividades de cada grupo”.

Para Vygotsky a cultura é determinante na formação do ser humano. Considera, portanto que o processo biológico do homem torna-se sócio-histórico, ou seja, uma mutação do homem enquanto corpo e do homem enquanto mente. Segundo ele (...)a cultura como parte essencial da constituição do ser humano, num processo em que o biológico transforma-se no sócio-histórico.

Segundo Oliveira, (2002, p. 80), Vygotsky considera a cultura como o elemento divisor entre o homem e o animal. Nesse sentido a cultura não é vista por ele como imóvel, que subordina os indivíduos, pelo contrário, a cultura é vista por Vygotsky como a possibilidade dos indivíduos processarem ajustes, combinações, recriando e reinterpretando informações, formulando conceitos e significados para os fatos. Ao ter consciência desse material cultural, o homem se apropria dele podendo assim utiliza-lo para suas ações no seu meio. Assim afirma:

Porém a cultura não é pensada por Vygotsky como um sistema estático ao qual o indivíduo se submete, mas como uma espécie de "'palco de negociações" em que seus membros estão em constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significados. Ao tomar posse do material cultural, o indivíduo o torna seu, passando a utilizá-lo como instrumento pessoal de pensamento e ação no mundo.

Esperamos assim, que as instituições de ensino fundamental se apropriando das teorias de Vygotsky, passem a pensar no desenvolvimento dos educandos dando o devido valor à cultura, como elemento integrador e mediador da formação do ser humano. Enxergando a criança como indivíduo singular, com histórias de vida diversas e peculiares, típicas das suas interações com o meio e com o seu semelhante. Assim comenta Oliveira (2002, pg. 80): “(...) Envolve também a construção de sujeitos absolutamente únicos, com trajetórias pessoais singulares e experiências particulares em sua relação com o mundo e fundamentalmente com as outras pessoas”.

A nossa proposta é que as instituições de Ensino Fundamental possibilitem o desenvolvimento dos adolescentes por meio de uma valorização da cultura local, sobretudo aquela que perpassa as gerações e sobrevivem à modernidade.

Conclusão

Descobri em minha pesquisa que muitas das práticas de cultura popular desenvolvidas nas escolas de Barbalha-Ce, acontecem de maneira esporádica e assistemática. No dia do folclore ou nas festas juninas que tem muita tradição em nossa região, a escola promove algumas manifestações em alusão aos santos do mês, como quadrilha junina, mas nem todos que fazem parte da escola participam, pois por serem ações não contínuas, os alunos e professores não se sentem estimulados para tal. Depois desse período não se dão prosseguimento as ações que fortaleçam a cultura popular local nas práticas pedagógicas.

Quanto à capacidade que os professores de Barbalha-Ce tem de ministrar aulas e desenvolver projetos que incentivem a produção cultural local, percebi que precisam mais a fundo sobre a formação cultural da nossa terra, para se situarem periodicamente e historicamente no debate sobre cultura popular local.



Referências

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